Genética feminina pode reduzir ação dos anticoncepcionais?

Quem aí assistiu uma reportagem divulgada sobre um gene que pode prejudicar a ação dos anticoncepcionais?

Divulgaram um estudo (publicado em uma revista importante chamada Obstetrics and Gynecology) onde descobriram que as mulheres que possuem o gene CYP3A7*1C podem ter uma quantidade reduzida de hormônios anticoncepcionais circulando no sangue, diminuindo assim a eficácia e aumentando o risco de falha. Nessa pesquisa, apenas o implante de etonogestrel foi avaliado (Implanon®).

Esse mesmo estudo mostrou que apenas 5% das mulheres participantes apresentavam esse gene ativo, e destas, apenas 28% apresentaram concentrações sanguíneas de etonogestrel abaixo de 90 pg/ml (valor limite de concentração hormonal com capacidade de inibir a ovulação). Acreditam que as portadoras desse gene produzem uma enzima que aumenta a metabolização do etonogestrel.

Porém isso pode ocorrer mesmo nas mulheres que não possuem esse gene. Nesse mesmo estudo, 9% das mulheres que não apresentam esse gene tinham níveis de hormônio abaixo do esperado, porém em mulheres que apresentavam esse gene o valor chega a 27,8%.

Considerando que a prevalência dessa mutação genética na população é de 5%, de cada 100 mulheres 5 apresentarão essa mutação. Destas 5, apenas 27,8% (ou seja: 1,4 mulheres) terão níveis hormonais mais baixos.

E como podemos concluir isso tudo?

Vamos levar em consideração que essa mutação sempre existiu na população mundial (embora ainda não soubéssemos). Desta forma, todos os estudos de eficácia incluíram (mesmo sem saber) mulheres com essa mutação. E nesses estudos concluiu-se que o implante de etonogstrel tem 5 falhas a cada 10.000 mulheres (taxa inferior à laqueadura – sim, ele é mais seguro que a laqueadura!!!). Ou seja, será que as falhas seriam apenas nas mulheres com essa mutação genética? Não sabemos ainda.

Lembrando que, mesmo em níveis abaixo de 90 pg/ml, existem sim efeitos anticoncepcionais no organismo, como alteração de muco presente no colo uterino e alteração da motilidade tubárea (pequenos cílios dentro da tuba que movimentam o óvulo e espermatozóide).

Ou seja, de forma prática esse estudo AINDA não nos prova nada. Sempre soubemos que falhas podem existir (não existe método 100% seguro).

Descomplicou?

Referências: 1. Lazorwitz et al, Gentics Variants and Etonogestrel Concentrations, vol 00, no00, month 2019, OBSTETRICS & GYNECOLOGY 2. Carolina Sales Vieira, Contracepção em foco. Foto de capa:https://www.metropoles.com/saude/5-das-mulheres-tem-gene-que-boicota-anticoncepcional-diz-pesquisa.